sábado, 23 de maio de 2009

Montanhismo Existencial II

Com relação às mortes que ocorrem na montanha, você as interpreta como um fator natural e até mesmo traça uma apologia ao comportamento de risco.

Assis Aymone – Historicamente a humanidade tem procurado a montanha para desenvolver o seu relacionamento com o sagrado. Esse fator se deve às sensações e às reflexões que esse território desperta no ser humano. Em diversas culturas antigas, a montanha era o altar de sacrifícios e a morada dos deuses. Na sociedade moderna, regida pelo livre arbítrio e pelo individualismo, essa busca ocorre no plano pessoal e não mais institucional. Queremos nos sentir como semideuses, penetrando nesse território, e realmente desfrutamos dessa sensação por breves momentos. Porém corremos o risco de não mais voltar, ou seja, ficar para sempre na montanha. Aqui entram as relações finitude humana e infinito (espacialidade), tempo de vida e eternidade (temporariedade). Buscamos a totalidade ou completude de nosso Ser para superar nossa finitude. Mas como consegui-la sem um processo de busca e integração, o que implica em doação ou abertura? Aqui entra o plano das dimensionalidades, pois nossa razão e conhecimento abarcam apenas partes do processo, já que nos encontramos num território que foge ao nosso domínio e estamos a mercê de suas contingências. Os erros que induzem os montanhistas à morte nem sempre são causados por erros objetivos, pois esses são óbvios, e sim por um processo mais amplo que engloba desejos e carências soterradas no Ser e no inconsciente, e que levam ao “erro acidental”. Essa avaliação não é uma apologia ao suicídio, mas uma compreensão mais ampla do processo. Torna-se um tributo aos deuses orientado pela nossa liberdade, de cuja dimensão não temos a mínima noção - deuses entendidos como plenitude ou totalidade de nosso Ser.

Qual a relação entre o sagrado e o humano, entre finito e infinito que as montanhas despertam no ser humano?

Assis Aymone – Chego a afirmar que a montanha e, mais especificamente, as de altitude, nos apresentam nosso próprio espírito ou Ser essencial. Pois, à medida que a ascensão ocorre, nosso ego é esfacelado pela caminhada ascética e todo nosso apego às “superficialidades – não essenciais” que regem nossa vida perdem o seu significado ou sentido. Por isso, as aparentes contradições conceituais de certas escolas filosóficas e do senso comum do cotidiano lá perdem o seu conteúdo e se fundem. As diversas concepções se tornam verdadeiras em diferentes graus. Esses conceitos apenas apresentam sua concretude enquanto apegados aos valores ilusórios que sustentam as relações sociais reinantes na baixa altitude. A relação direta entre o humano e a realidade ou natureza extrema, concebida como território do sagrado, pressupõe um processo de ascese. No entanto, essa relação não se estabelece somente no campo filosófico, mas também físico, comprovado pelas ciências modernas. As sensações e sentimentos experimentados nestes estados quase místicos em contato direto com a brutal mineralidade (que nega a possibilidade de a vida lá se estabelecer), combinada com a rarefação do ar, levam-nos a relativizar as próprias noções de tempo e dimensionalidades (será o infinito a soma das finitudes ou a sua negação? Será o eterno a soma dos tempos ou a sua negação?). A base física destas sensações, provenientes do campo externo, são os mesmos sais minerais (como matéria universal) que habitam nosso corpo e latejam energeticamente em nossa alma – impressas na tábua de ausência e presença das substâncias essenciais - despertando conexões ainda inexploradas ou esquecidas na memória genética. Nas montanhas de altitude, elas são resgatadas e potencializadas, mediante a imperativa condição da realidade extrema, onde a vida é tão hostil que precisamos procurá-la dentro de nós mesmos. Portanto, essa sensação de imortalidade, buscada historicamente pela humanidade, é causada pela latência do eterno em nosso corpo. Os átomos da alma, como dizia Demócrito.


Essa discussão não foge um pouco do interesse da cultura brasileira e onde está fundamentada sua proposição?

Assis Aymone - Podemos encontrar pistas desta concepção em diversos livros, entre muitos “A Montanha Mágica” de Thomas Mann, mas principalmente nas ciências modernas e livros tipo “idealizações da física quântica”. Mas fato é que a cultura nacional ainda não está habituada a esse conteúdo. Na Alemanha e Europa é comum vincular montanhistas com filósofos, psicanalistas e cientistas nas discussões sobre temas e assuntos do nosso cotidiano, como: medo, angústia, depressão, processos produtivos, posturas perante a vida, terapias, e até reflexões acerca da sociedade, como o conceito da “velocidade do vazio” em que estamos inseridos dentro do desenvolvimento tecnológico. Mas realmente, pelo fato dela centrar-se mais nos aspectos filosóficos e psicanalíticos fica de difícil compreensão aos outros profissionais e público em geral. Com relação ao montanhismo eu temo que aconteça o mesmo fenômeno que ocorreu com o surf, onde a indústria de consumo e a falta de cultura dos praticantes acabaram por banalizar e idiotizar o assunto e principalmente os praticantes. Neste sentido, minha proposição é de resgatar os saberes soterrados, não somente na memória da história da humanidade, mas também nos registros dos padrões genéticos com suas pulsões, que até hoje nos conduz por caminhos multifacetados e de difícil compreensão. Acessar esse território em que esse “saber” ainda está imanente é tarefa árdua e ascética, que muitas vezes foge das mazelas da mente humana.

Montanhismo Existencial


Montanhismo Existencial



A enigmática relação humana x sagrado na aventura extrema


O Sociólogo, poeta e montanhista gaúcho Assis Aymone, autor do livro “Aconcágua – o cume e depois morrer” da Editora Record, coleção Viagens Radicais, nos concedeu a seguinte entrevista sobre seu livro, que já vem sendo considerado uma novidade na literatura da área. Nesta conversa, o autor aborda, principalmente, o impacto causado pela temática enfocada na obra, não somente na área que envolve viagens e aventuras extremas, mas principalmente na relação filosófica entre o ser humano e a altitude e a vida levada a situações extremas.








O seu livro foca questões filosóficas e existências da relação entre o ser humano e a montanha, o que vem causando estranheza entre os leitores que procuram esse tipo de literatura, a que você atribui esse fato?

Assis Aymone – Quando comecei a escrever o livro, ainda não tinha definido um público alvo nem uma temática específica, principalmente por ele ser fruto de uma experiência sensível que somente no transcorrer do processo se tornou universal. A editora optou por incluí-lo em uma coleção voltada a viagens radicais e aventuras extremas, em função de o cenário real ser uma expedição ao Aconcágua, a montanha mais alta do mundo fora do Himalaia. Como minha formação é nas ciências humanas e minha intenção inicial era escrever poemas em contato com a realidade extrema – o que nos obriga a percorrer um verdadeiro caminho ascético, vivendo na contingência entre a vida e morte e penetrando no que designo como território do vazio existencial – esses fatores foram determinantes na elaboração ou apropriação teórica da experiência, permeando-as de reflexões de conteúdo filosófico e focando na relação entre o Ser e a montanha. Baseei-me ora no empirismo, ora na ontologia. Nesse sentido, meu livro veio preencher um vazio, pois considero que a literatura voltada para essa área carece de um fundamento mais consistente e interpretativo dessa relação, resumindo-se, na maior parte das vezes, a relatos técnicos. O conteúdo do livro é abrangente, pois nos leva a refletir sobre o sentido de nossa vida.


Quem compra este tipo de livro geralmente está buscando um roteiro de aventura. O fato de encontrar uma reflexão existencialista é o fator que causa a surpresa?

Assis Aymone – Sim, com certeza! No lugar de me deter ao relato de uma aventura, preferi me aprofundar nas reflexões provocadas pelo contato com a altitude, o ar rarefeito, o sofrimento físico e psicológico, a sensação de liberdade absoluta, o sentimento de totalidade e plenitude, a solidão (elementos da realidade extrema) e o afastamento de nosso cotidiano feito de aversões e desejos. São condições adversas, que nos fazem pensar sobre o sentido de nossa vida ou de nosso modo de vida sustentado no ego e na velocidade vazia da sociedade de consumo . Quando entramos nesta faixa de altitude, chamada de realidade extrema, entramos em outro campo vibratório: nosso sangue perde fluidez, o ar que respiramos tem menos oxigênio, nosso cérebro altera sua freqüência, nossa percepção da realidade concreta é alterada. Isso nos leva a dois extremos de comportamento: ou à brutalidade estóica, ou a exaltações ontológicas. Mas suas manifestações ocorrem num plano oculto ou inconsciente, a que chamo de latência do eterno. Não percebemos a lenta metamorfose. Talvez o mérito de meu livro seja o de apreender essas sensações e trazê-las não somente ao plano da consciência (do implícito ao explicito), mas também apresentar os instrumentos ou recursos conceituais para captá-las e analisá-las. Esse processo é capaz de ser realizado somente por um fenômeno de coincidência isolada (unidade / corpo, movimento / ascensão no espaço / tempo-limite / transcendência) desenvolvido pelo montanhista, integrando a base material e física e ao amadurecimento do espírito (base abstrata e intelectual). Nesse sentido, a reflexão existencial é uma constante. Sartre e Kierkegaard dão o tom.