Assis Aymone – Historicamente a humanidade tem procurado a montanha para desenvolver o seu relacionamento com o sagrado. Esse fator se deve às sensações e às reflexões que esse território desperta no ser humano. Em diversas culturas antigas, a montanha era o altar de sacrifícios e a morada dos deuses. Na sociedade moderna, regida pelo livre arbítrio e pelo individualismo, essa busca ocorre no plano pessoal e não mais institucional. Queremos nos sentir como semideuses, penetrando nesse território, e realmente desfrutamos dessa sensação por breves momentos. Porém corremos o risco de não mais voltar, ou seja, ficar para sempre na montanha. Aqui entram as relações finitude humana e infinito (espacialidade), tempo de vida e eternidade (temporariedade). Buscamos a totalidade ou completude de nosso Ser para superar nossa finitude. Mas como consegui-la sem um processo de busca e integração, o que implica em doação ou abertura? Aqui entra o plano das dimensionalidades, pois nossa razão e conhecimento abarcam apenas partes do processo, já que nos encontramos num território que foge ao nosso domínio e estamos a mercê de suas contingências. Os erros que induzem os montanhistas à morte nem sempre são causados por erros objetivos, pois esses são óbvios, e sim por um processo mais amplo que engloba desejos e carências soterradas no Ser e no inconsciente, e que levam ao “erro acidental”. Essa avaliação não é uma apologia ao suicídio, mas uma compreensão mais ampla do processo. Torna-se um tributo aos deuses orientado pela nossa liberdade, de cuja dimensão não temos a mínima noção - deuses entendidos como plenitude ou totalidade de nosso Ser.
Assis Aymone – Chego a afirmar que a montanha e, mais especificamente, as de altitude, nos apresentam nosso próprio espírito ou Ser essencial. Pois, à medida que a ascensão ocorre, nosso ego é esfacelado pela caminhada ascética e todo nosso apego às “superficialidades – não essenciais” que regem nossa vida perdem o seu significado ou sentido. Por isso, as aparentes contradições conceituais de certas escolas filosóficas e do senso comum do cotidiano lá perdem o seu conteúdo e se fundem. As diversas concepções se tornam verdadeiras em diferentes graus. Esses conceitos apenas apresentam sua concretude enquanto apegados aos valores ilusórios que sustentam as relações sociais reinantes na baixa altitude. A relação direta entre o humano e a realidade ou natureza extrema, concebida como território do sagrado, pressupõe um processo de ascese. No entanto, essa relação não se estabelece somente no campo filosófico, mas também físico, comprovado pelas ciências modernas. As sensações e sentimentos experimentados nestes estados quase místicos em contato direto com a brutal mineralidade (que nega a possibilidade de a vida lá se estabelecer), combinada com a rarefação do ar, levam-nos a relativizar as próprias noções de tempo e dimensionalidades (será o infinito a soma das finitudes ou a sua negação? Será o eterno a soma dos tempos ou a sua negação?). A base física destas sensações, provenientes do campo externo, são os mesmos sais minerais (como matéria universal) que habitam nosso corpo e latejam energeticamente em nossa alma – impressas na tábua de ausência e presença das substâncias essenciais - despertando conexões ainda inexploradas ou esquecidas na memória genética. Nas montanhas de altitude, elas são resgatadas e potencializadas, mediante a imperativa condição da realidade extrema, onde a vida é tão hostil que precisamos procurá-la dentro de nós mesmos. Portanto, essa sensação de imortalidade, buscada historicamente pela humanidade, é causada pela latência do eterno em nosso corpo. Os átomos da alma, como dizia Demócrito.
Assis Aymone - Podemos encontrar pistas desta concepção em diversos livros, entre muitos “A Montanha Mágica” de Thomas Mann, mas principalmente nas ciências modernas e livros tipo “idealizações da física quântica”. Mas fato é que a cultura nacional ainda não está habituada a esse conteúdo. Na Alemanha e Europa é comum vincular montanhistas com filósofos, psicanalistas e cientistas nas discussões sobre temas e assuntos do nosso cotidiano, como: medo, angústia, depressão, processos produtivos, posturas perante a vida, terapias, e até reflexões acerca da sociedade, como o conceito da “velocidade do vazio” em que estamos inseridos dentro do desenvolvimento tecnológico. Mas realmente, pelo fato dela centrar-se mais nos aspectos filosóficos e psicanalíticos fica de difícil compreensão aos outros profissionais e público em geral. Com relação ao montanhismo eu temo que aconteça o mesmo fenômeno que ocorreu com o surf, onde a indústria de consumo e a falta de cultura dos praticantes acabaram por banalizar e idiotizar o assunto e principalmente os praticantes. Neste sentido, minha proposição é de resgatar os saberes soterrados, não somente na memória da história da humanidade, mas também nos registros dos padrões genéticos com suas pulsões, que até hoje nos conduz por caminhos multifacetados e de difícil compreensão. Acessar esse território em que esse “saber” ainda está imanente é tarefa árdua e ascética, que muitas vezes foge das mazelas da mente humana.


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