Montanhismo Existencial
A enigmática relação humana x sagrado na aventura extrema
O seu livro foca questões filosóficas e existências da relação entre o ser humano e a montanha, o que vem causando estranheza entre os leitores que procuram esse tipo de literatura, a que você atribui esse fato?
Assis Aymone – Quando comecei a escrever o livro, ainda não tinha definido um público alvo nem uma temática específica, principalmente por ele ser fruto de uma experiência sensível que somente no transcorrer do processo se tornou universal. A editora optou por incluí-lo em uma coleção voltada a viagens radicais e aventuras extremas, em função de o cenário real ser uma expedição ao Aconcágua, a montanha mais alta do mundo fora do Himalaia. Como minha formação é nas ciências humanas e minha intenção inicial era escrever poemas em contato com a realidade extrema – o que nos obriga a percorrer um verdadeiro caminho ascético, vivendo na contingência entre a vida e morte e penetrando no que designo como território do vazio existencial – esses fatores foram determinantes na elaboração ou apropriação teórica da experiência, permeando-as de reflexões de conteúdo filosófico e focando na relação entre o Ser e a montanha. Baseei-me ora no empirismo, ora na ontologia. Nesse sentido, meu livro veio preencher um vazio, pois considero que a literatura voltada para essa área carece de um fundamento mais consistente e interpretativo dessa relação, resumindo-se, na maior parte das vezes, a relatos técnicos. O conteúdo do livro é abrangente, pois nos leva a refletir sobre o sentido de nossa vida.
Assis Aymone – Quando comecei a escrever o livro, ainda não tinha definido um público alvo nem uma temática específica, principalmente por ele ser fruto de uma experiência sensível que somente no transcorrer do processo se tornou universal. A editora optou por incluí-lo em uma coleção voltada a viagens radicais e aventuras extremas, em função de o cenário real ser uma expedição ao Aconcágua, a montanha mais alta do mundo fora do Himalaia. Como minha formação é nas ciências humanas e minha intenção inicial era escrever poemas em contato com a realidade extrema – o que nos obriga a percorrer um verdadeiro caminho ascético, vivendo na contingência entre a vida e morte e penetrando no que designo como território do vazio existencial – esses fatores foram determinantes na elaboração ou apropriação teórica da experiência, permeando-as de reflexões de conteúdo filosófico e focando na relação entre o Ser e a montanha. Baseei-me ora no empirismo, ora na ontologia. Nesse sentido, meu livro veio preencher um vazio, pois considero que a literatura voltada para essa área carece de um fundamento mais consistente e interpretativo dessa relação, resumindo-se, na maior parte das vezes, a relatos técnicos. O conteúdo do livro é abrangente, pois nos leva a refletir sobre o sentido de nossa vida.
Quem compra este tipo de livro geralmente está buscando um roteiro de aventura. O fato de encontrar uma reflexão existencialista é o fator que causa a surpresa?
Assis Aymone – Sim, com certeza! No lugar de me deter ao relato de uma aventura, preferi me aprofundar nas reflexões provocadas pelo contato com a altitude, o ar rarefeito, o sofrimento físico e psicológico, a sensação de liberdade absoluta, o sentimento de totalidade e plenitude, a solidão (elementos da realidade extrema) e o afastamento de nosso cotidiano feito de aversões e desejos. São condições adversas, que nos fazem pensar sobre o sentido de nossa vida ou de nosso modo de vida sustentado no ego e na velocidade vazia da sociedade de consumo . Quando entramos nesta faixa de altitude, chamada de realidade extrema, entramos em outro campo vibratório: nosso sangue perde fluidez, o ar que respiramos tem menos oxigênio, nosso cérebro altera sua freqüência, nossa percepção da realidade concreta é alterada. Isso nos leva a dois extremos de comportamento: ou à brutalidade estóica, ou a exaltações ontológicas. Mas suas manifestações ocorrem num plano oculto ou inconsciente, a que chamo de latência do eterno. Não percebemos a lenta metamorfose. Talvez o mérito de meu livro seja o de apreender essas sensações e trazê-las não somente ao plano da consciência (do implícito ao explicito), mas também apresentar os instrumentos ou recursos conceituais para captá-las e analisá-las. Esse processo é capaz de ser realizado somente por um fenômeno de coincidência isolada (unidade / corpo, movimento / ascensão no espaço / tempo-limite / transcendência) desenvolvido pelo montanhista, integrando a base material e física e ao amadurecimento do espírito (base abstrata e intelectual). Nesse sentido, a reflexão existencial é uma constante. Sartre e Kierkegaard dão o tom.

A experiencia da altitude da montanha, visto com um olhar existencial , despertou-me a curiosidade, já está decidido a minha leitura .
ResponderExcluirMui bela definição de Assis "preferi me aprofundar nas reflexões provocadas pelo contato com a altitude, o ar rarefeito, o sofrimento físico e psicológico, a sensação de liberdade absoluta, o sentimento de totalidade e plenitude, a solidão (elementos da realidade extrema).
Parabéns pela busca de experiencia e por trazer estes resultados até nos. Um abraço.Amelia Mari Passos
Religare.
ResponderExcluirnada mais desafiador que escalar uma montanha 🗻 gelada, inóspita, desafiadora, onde não há ninguém é nada é mais perigoso que o próprio ser.